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O VALOR DAS PESSOAS

Faz uns 20 dias quase, antes desse calorão, numa madrugada de quinta para de sexta-feira, tive uma insônia brava a partir das 4 horas da manhã.

 

Nesses momentos nossa mente vai por caminhos que simplesmente desconhecemos….

 

Na verdade, estava tendo um sonho obsessivo com um tema bastante chato de economia: como dar valor as coisas, o dinheiro como unidade de valor e por aí vai.

 

Não sei se no final do sonho ou no começo da insônia, me peguei pensando no valor que as pessoas têm em nossas vidas

 

De repente, sem qualquer reflexão profunda (o que seria ali impossível), pensei numa medida de valor para definir o quanto as pessoas são importantes em nossas vidas: a vontade, e até a quantidade, de abraços que gostaríamos de dar nelas!

 

Sei que no fundo isso é algo desnecessário – não precisamos de nada “objetivo” para esse tipo de avaliação – mas às 4 horas da manhã tudo pode acontecer….

 

Pensei em como gosto de abraçar a Regina milhares de vezes! Como seu amor e dedicação incansáveis são, em muitos momentos, quase tudo o que eu tenho…

 

Pensei em como minha mãe também merece milhares de abraços por seu imenso carinho comigo desde que me conheço por gente….

 

Pensei em como abraço pouco meu pai, embora eu sinto vontade de fazer mais isso como agradecimento por tudo que aprendi com ele….

 

Mesmo à distância, desejaria abraçar mais meu irmão e dizer o quanto admiro sua trajetória de vida….

 

E assim foi, não parava de pensar nisso: o valor das pessoas determinado ou medido pela quantidade de vezes que gostaríamos de abraçá-las!

 

Minha tia Iza, meu tio Marinho, primos e primas, a maioria distantes, além de familiares que já se foram, como minhas avós Diva e Anamélia. Não que eu ficasse fazendo contas exatas de quantos abraços cada um mereceria, mas a simples lembrança e o desejo do abraço vinham como pura expressão do meu amor e da saudade que sinto por eles….

 

Fui para o âmbito dos amigos. Abraços para meu talvez mais antigo amigo, o Rolha, da Escola Comunitária, o Professor Waldir Quadros da Economia da Unicamp, a minha amiga Kátia, do saudoso Centro de Vida Independente de Campinas….

 

Abraços que representam minhas grandes três esferas de vida que já foram: 11 anos de Escola Comunitária (1983-1994), 16 anos na economia na Unicamp (1994-2010, da graduação ao doutorado, com o acidente no meio), 13 anos na militância no movimento de pessoas com deficiência (1997-2010)……..

 

Engraçado que me dei conta, lá por volta da 4h30 da madrugada, que para o Rolha temos uma brincadeira entre nós que dizemos ” aquele”, sem precisar completar com a palavra abraço, em referência a música do Gilberto Gil…

 

E minha cabeça não parava de pensar. Me apavorou pensar como nos últimos dez anos, desde 2009-2010, quando fechou-se o diagnóstico das dores neuropáticas crônicas, conheci poucas pessoas para abraçar! É porque entrei numa quarta esfera de “vida”, essa cinza e, acima de tudo, dolorosa, com o perdão da obviedade…

 

Esse pensamento triste logo me levou a outro que, infelizmente, tenho com certa frequência: “abraços a todos, boa sorte, para mim já deu, fui!”….

 

Mas aí respirei fundo, me acalmei, e voltei a pensar em abraços mais recentes, pois o sono, naquela altura, já era…

 

Pensei no meu amigo de instituto de Economia da Unicamp que, além de tudo, virou meu fornecedor atual. E acho que não posso dizer o seu nome para não criar constrangimento já que no Brasil a maconha ainda não é liberada nem mesmo para tratamento medicinal….

 

Abraços para as minhas colegas de equipe de monografia da Facamp, Nanda, Tati e Ju, que “seguram a onda” e que simbolizam também meu abraço para instituição que me permite continuar trabalhando mesmo com todas as dificuldades…

 

Eu não parava de pensar e já eram 5:30 da manhã! Pensei nas minhas colegas de Núcleo de Pesquisa, Guirlanda e Malu, pois abraça-las significa pensar que existem perspectivas de trabalho, de futuro…

 

E já quase perto das 6 da manhã pensei na Laura, uma amiga antiga de Escola de Comunitária, que tem vindo aqui semanalmente e ajudado a romper o meu ceticismo atávico, construindo a ideia de que isso aqui é passageiro e pode haver um sentindo maior e não material no que vivemos…

 

Ufa, cansei. Verdade que antes do despertador tocar ainda pensei em figuras históricas e, pasmem, até políticos que eu abraçaria, ou não! Não vou entrar nessa seara, mas um em particular nunca teria meu abraço, pois me provoca asco e repulsa (não preciso nem dizer quem é).

 

Eu ditei grande parte desse texto naquela sexta pela manhã, fazendo apenas algumas correções e complementos agora. Isso é sintoma da minha fase de dificuldades, pois as dores aumentam quando escrevo. Mas o que senti veio como uma força brutal naquela madrugada, que era preciso colocar para fora!

 

Citei algumas pessoas nominalmente e por isso corro o risco de ter cometido injustiças. Assim, termino simplesmente mandando um grande abraço a (quase) TODOS!

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Pedras no caminho

Nascemos, puros e ingênuos

A felicidade então é desfrutar e pensar que cada dia é o que vale

Futuro, uma noção abstrata

Crescemos, surgem pedregulhos

Aparecem inseguranças, alguns medos se espreitam

Vamos vivendo e as pedras vão tomando forma

Mais pesadas para alguns, mais leves para outros

Certeza só que aparecem para todos

Passar incólume? Ilusão

Então, o que resta é como vamos carrega-las

Esconder, ignorar? Não, com algumas, simplesmente impossível

Encarar, lidar de frente? Pode ser, mas cansa, desgasta

Talvez, simplesmente, conviver com elas

Somos, ao longo da vida, acumuladores de pedras

O que nos resta, creio, e termos bolsas suficientes para leva-las

E o desafio, então, é como se costuram as bolsas

Elas não são confeccionadas de forma convencional

Seu material não se constitui de linhas ou couro

Mas de um entrelaçado de amor e esperança

Só assim serão fortes o suficiente para levar as pedras que todos encontramos no caminho.

Limites

Qual o limite que posso aguentar?

Esqueçam os parâmetros físicos, eles ficaram para traz.

Faltam adjetivos para, em termos concretos, tentar descrever a dor.

Exagero? Bem, só eu posso dizer.

Vamos acreditar em mim. A métrica comum, então, foi superada.

O limite, nesse caso, só pode ser expandido por outros vetores.

Eles não estão restritos ao campo material, vão muito além.

O meu limite hoje só é alterado em razão de sensações, de emoções e da fé.

Sensação que vem de um sorriso da pessoa amada.

Emoção que é aguçada por uma música ou um belo filme.

Fé em Deus. Ou, naquilo que ele representa para mim.

Um mosaico de “valores”: a generosidade, a solidariedade e o amor.

Sim, só assim expando meus limites e, ainda, sigo respirando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ricardo Rivelino e a cadeira

Ricardo Rivelino e a cadeira

  1. O Nascimento e as Lágrimas

Seu Sebastião, ou Tião como era conhecido na zona leste de São Paulo, especialmente em Itaquera, não conseguia controlar a ansiedade. Nem mesmo a cachacinha sagrada, receita infalível, tinha dado conta. Não era para menos, seu primogênito estava a caminho. Estávamos em 1975 e, para completar a aflição do futuro pai, o céu parecia despencar com a chuva incessante e volumosa que castigava a capital paulistana.

O nome do rebento já estava escolhido, quer dizer, se fosse menino. Não que fosse machista, ele se alegraria de qualquer forma, mas era esse o desejo íntimo de Tião quando imaginava sua paternidade. Um menino, bom de bola e que, acima de tudo, pudesse ir com ele aos jogos do Corinthians, seu momento semanal de êxtase, onde extravasa todas as preocupações acumuladas. A negociação com Dona Maria, que a essa altura estava sentido todas as contrações possíveis na mesa de parto, tinha sido rápida. Ela queria Ricardo, nome que a fazia pensar em alguém importante, num rei quem sabe. Já ele queria homenagear seu maior ídolo: Rivelino, o craque do Timão que ele viu crescer no Parque São Jorge.

Chegou-se, assim, ao nome completo: Ricardo Rivelino da Silva (sobrenome comum a ambos).

Mas o tempo passava, e nada. Tião não queria tomar outra cachaça, pois sua vontade era estar de cara limpa ao ver o primeiro sorriso do filho. Como não aguentava ficar na sala de parto, decidiu então enfrentar a chuva e sair atrás do primeiro presente para o menino: um gorrinho, claro, do Corinthians. E se fosse menina? Ora, ela também poderia usar e, porque não, também o acompanhar nos jogos? Pensou nisso e ficou satisfeito! Lembrou-se de uma lojinha não tão longe dali em que, dentre outros itens “caseiros”, tinha visto os tais gorrinhos de crochê com as cores e símbolos dos principais times de São Paulo.

Não tinha guarda-chuva, mas esgueirando-se entre as marquises chegou, naturalmente que muito molhado, a lojinha. Perguntou sobre o gorrinho do Timão e a vendedora, para seu desespero, disse que achava que tinham acabado. Sobravam fartamente os do Palmeiras, São Paulo e Santos. Óbvia a razão: os do Corinthians eram os mais procurados e vendidos naquela região da cidade. Implorou para vendedora dar uma olhada no estoque. Depois de alguns minutos, ela apareceu e disse: “Encontrei o último!”. Tião sorriu e pensou que aquilo era um ótimo sinal. Seu filho, ou filha, estava predestinado a torcer pelo Corinthians como ele!

A chuva diminuiu um pouco e a volta para o hospital foi mais rápida e menos molhada. Sentou-se na sala de espera que, na parte superior, tinha uma ligação elétrica com duas lâmpadas: uma vermelha, outra azul (hoje isso não existe mais para raiva de alguns ministros, ou ministras, de Estado). Mas na época era assim, e se acendesse a luz vermelha era menina, a luz azul, menino. Tião sentou-se, mas antes que a ansiedade pudesse novamente invadi-lo, piscou a luz azul e seus olhos encheram-se de lágrimas: ele era pai.

O médico convidou-o a entrar na sequência. Com o gorrinho alvinegro apertado junto ao peito, Tião viu Dona Maria com um bebe em seus braços. Eles já não eram um casal novo, por vários anos tentaram ter filhos e não conseguiram. Mas agora ele estava lá, minúsculo em seu tamanho real, mas imenso nos sonhos e desejos daqueles pais. Tião beijou Maria na testa, ela sorriu e lhe ofereceu o filho. Se antes as lágrimas tinham apenas se formado, agora elas jorravam em seu resto.

 

  1. O Crescimento e o Acidente

 

Passaram-se os anos. Eles tentaram de novo, mas por razões que nem os médicos sabiam explicar, Dona Maria nunca mais engravidou. Ricardo Rivelino da Silva era filho único, com todos os bônus e ônus que essa situação representa. Os sonhos de Tião para o filho estavam se realizando: o garoto era bom de bola e não perdia um jogo do Corinthians com o pai. Claro, em 1977, quando o Timão quebrou um jejum de títulos de 23 anos, o menino, com apenas dois anos, ficou com a mãe enquanto o pai se exprimia no Morumbi com mais de 130 mil pessoas para ver o gol histórico de Basílio.

Mas vieram os anos 80. O país mudava e, depois de quase duas décadas de ditadura militar (que provoca, ao contrário da raiva, regozijo em alguns governantes), iniciava-se um processo de abertura e transição para um regime democrático. E nesse processo floresceu aquilo que Tião, e muitos outros, considerava o momento mais belo da longa história do Timão: a democracia corintiana. Liderado por outra craque, o dr. Sócrates, e com a ajuda de figuras como o carismático Wladimir e o jovem roqueiro Casagrande, o movimento inseriu-se no momento político pelo qual passava o país. E se não bastasse o ineditismo dos seus ideais, ainda mais num ambiente conservador como é o do futebol, o time jogava muito!

Ricardo Rivelino, mesmo com seus tenros 8 anos de idade, e para desespero da mãe que o mimava, estava ao lado do pai, mais uma vez espremidos no Morumbi, para vibrar e chorar com o bicampeonato paulista em 1983 em cima do São Paulo. Porém, seu jogador favorito não era nenhum dos já citados, o menino adorava mesmo um tal de Biro-Biro que corria pelo campo feito um leão marinho louro na sua imaginação infantil.

Além de se encantar com as partidas, o menino jogava muito bem. Sua formação como boleiro não tinha sido em campos de society com grama artificial, mas nas ruas esburacadas da Zona Leste ou, na melhor das hipóteses, nos campos de terra do bairro. Tião impressionou-se quando, mesmo com 7 ou 8 anos, Riva, como fora apelidado (assim como o inspirador do seu nome) já levava vantagem no confronto com garotos mais velhos, driblando-os com facilidade para certa vergonha dos outros pais. Não ia demorar, o próximo passo seria levar o garoto para um teste no Parque São Jorge. Mas daí veio o que ninguém esperava.

Churrasco na casa do seu Gumercindo, verão de 1985. A vizinhança toda lá pois o encontro comemorava o noivado da filha do anfitrião. Seu Tião e dona Maria chegaram junto com Riva, trazendo a tira colo uma cachaça, dois refrigerantes e quase um quilo de linguiça para colaborar com a festa. Além da ocasião, o churrasco marcava também a inauguração da piscina no fundo da casa do seu Gumercindo, um verdadeiro luxo! Aquilo só foi possível com anos e anos de economias do velho comerciante que administrava de forma rigorosa seu armazém.

Os olhos de Riva brilharam quando ele viu a piscina. Ele sabia nadar, pois tinha aprendido no “lagão” ali do bairro mesmo, onde a molecada se esbaldava dando mergulhos numa água barrenta e de pureza duvidosa. Dona Maria ficou preocupada, mas como viu outras crianças na água, e também para não demonstrar ser a mãe super protetora como era acusada por todos, liberou o filho para entrar na piscina.

Foi uma daquelas coisas que ninguém espera. Riva, com um sorriso no rosto, decidiu que seria mais divertido entrar na piscina pulando de cabeça, assim como fazia no “lagão”. Tirou a camiseta e, sem pensar muito, correu e pulou. Não deu tempo nem de sentir o prazer de estar na água num dia quente do verão. Ao passar pelo espelho de água, sentiu o tranco forte, como uma chicoteada na cabeça que repercuti no pescoço. De imediato, não conseguia se mexer, apenas fazia movimentos débeis com os braços. O ar ia faltando e seu corpo quase explodindo numa corrente elétrica de sensações que ele desconhecia. Passaram-se alguns segundos e o alívio, pelo menos quanto à falta de ar, veio quando seu pai, já com o terror expresso no rosto, lhe puxou para fora da piscina. Sua vida nunca mais seria a mesma, nem a dos seus pais.

 

  1. A Cadeira e a Redenção

O tempo passou novamente. Estávamos em 1990. Riva tinha sofrido uma lesão medular na quinta vértebra cervical, tinha 15 anos e uma companheira inseparável: a cadeira de rodas para ajudá-lo a se locomover. Os primeiros dois anos tinham sido os piores. Uma criança com dez anos que não parava de correr se viu limitada, tendo que se adaptar a uma nova vida. Além da incapacidade física, uma série de outras coisas mudaram: a forma de ir ao banheiro, de comer ou mesmo de escovar os dentes, por exemplo.

Ficou um tempo afastado da escola, mas graças à dedicação incansável dos seus pais, buscou caminhos e alternativas. A escola, seus diretores e professores, numa atitude que deveria ser comum, mas, infelizmente, era a exceção, se mobilizaram e fizeram de tudo para incluí-lo de volta. Rampas, reforma no banheiro e flexibilidade curricular para que o menino não ficasse para trás.

Conhecer outras pessoas na cadeira de rodas também foi essencial. Se elas estudavam, saiam, eram felizes, porque não eu? Riva foi percebendo, mesmo criança, que a vida poderia seguir em frente. O que mais lhe fazia falta era jogar bola. Também ficou um pouco mais difícil ir aos jogos do Corinthians, mas nisso dava-se um jeito e o garoto e sua cadeira eram carregados, quando preciso, por seu Tião, amigos e corintianos desconhecidos que queriam simplesmente ajudar o jovem torcedor.

E valia a pena, porque naquele ano jogava no Corinthians um jogador que não tinha nada de atleta. Era até rechonchudo, mas tinha uma habilidade tremenda para bater na bola. Chamava-se Neto e vinha carregando um time limitado para as fases finais do campeonato brasileiro. Depois de vitórias na raça e com gols de Neto contra Bahia e Atlético-MG, chegou à final contra o São Paulo. Mais uma vez o Morumbi, estádio do rival, mas que, novamente, se transformou no salão de festa corintiano. Com um gol do talismã Tupãzinho, Riva, sua cadeira, seu pai e milhares de torcedores comemoraram o primeiro título brasileiro do Corinthians!

Seguia a vida. O garoto era agora um jovem de 25 anos. Riva concluiu, com méritos e para comoção de todos, o ensino médio e a faculdade de educação física. Sim, não poderia praticar, mas queria se dedicar a toda parte teórica dos esportes. Verdade também que jogar bola, caro, não dava, mas o futebol não sairia de sua vida. No Parque São Jorge, sua história era conhecida e admirada, dada a assiduidade do jovem nos jogos e treinos do Corinthians, com sua inseparável cadeira e seu velho pai. Foi então que o técnico do time principal, um ex-auxiliar do clube chamado Oswaldo de Oliveira, fez um convite inesperado e surpreendente para o jovem formado: ele acompanharia o time como membro da comissão técnica no primeiro mundial de clubes organizado pela FIFA, em janeiro de 2000.

O torneiro, por seu ineditismo, era cercado de controvérsias. A Rede Globo, por exemplo, a mesma que havia ignorado o movimento das Diretas Já em 1984 e manipulado flagrantemente a edição de um debate em favor do candidato Fernando Collor em 1989 (em detrimento de Lula), só para ficar em dois exemplos, chamava a competição de “torneio de verão”, dado que não detinha os direitos de transmissão. Mas Ricardo Rivelino não se importava. Ele tinha a chance de sua vida e acompanharia o time para jogar na primeira fase, por exemplo, só com o Real Madrid. O estádio, adivinhem, era o Morumbi. O jogo terminou empatado em 2 a 2, mas o lance que ficou na cabeça de todos foi o golaço de Edílson, o “capetinha”, que fuzilou o goleiro depois de um drible que envergonhou o marcador e o rei da Espanha.

Faltava acessibilidade nos bancos de reserva. Assim, Riva acompanhava os jogos ao lado do banco, observando e procurando formas de contribuir. Quando o Timão chegou à final contra o Vasco, quem ganhasse levava e, em caso de empate, haveria decisão por pênaltis. Ocorreu lhe então uma ideia: através de vídeos e pesquisas fazer um levantamento sobre como, de maneira geral, os batedores de pênalti do Vasco cobravam. Isso não era algo simples na época, mas ele foi atrás nos poucos dias que faltavam para a final. Conversou com jornalistas, buscou notícias de jogos anteriores, mas não conseguiu quase nada.

Somente uma informação lhe pareceu confiável: o lateral-esquerdo do Vasco, Gilberto, apelido “marrequinho”, sempre batia no canto direito do goleiro. Essa informação surgiu com uma boa dose de sorte e por uma relação familiar. Comentando com seu pai a ideia e a frustação de não conseguir nada, Tião lembrou-se de uma fonte segura: Alzires, seu primo, que tinha sido massagista no Flamengo, arquirrival do Vasco, durante os anos 80 e até recentemente. O “marrequinho” jogou no Flamengo entre 1996 e 1998 e tio Alzires garantiu que nem nos treinos tinha visto ele bater de outra forma.

O jogo, que ocorreu em 14 de Janeiro de 2000, se desenrolou num Maracanã quente e úmido. Foi tenso, disputado e terminou em 0 x 0. Decisão de pênaltis. Antes das cobranças, Oswaldo de Oliveira reuniu o seu grupo, com belos jogadores como Rincón, Vampeta, Ricardinho, Edílson, Luizão, além do “pé de anjo” Marcelinho, e fez o tradicional discurso de incentivo. Quando terminou, Riva conseguiu chamar o goleiro Dida e lhe deu a informação: se o Gilberto fosse bater, pule no canto direito, pode confiar.

As cobranças foram acontecendo e os gols saindo, até que o “marrequinho” pegou a bola para bater. Dida pensou consigo mesmo – não tenho nada a perder – vou pular na minha direita (que é, inclusive, o lado que a maioria dos canhotos bate). Pulou, pegou! As imagens são claras, na mesma hora ele aponta para o cadeirante sentado lá atrás do banco. Ainda faltavam alguns pênaltis. Por ironia, Viola, criado no terrão do Parque São Jorge, ainda fez pelo Vasco; e o “pé de anjo”, com a cobrança do título nos pés, errou. Sobrou então a última para Edmundo, o “animal”. Sentindo a pressão dos cerca de 25 mil corintianos em pleno Maraca, e tentando tirar demais do goleiro, o “animal” isola sua cobrança; bola fora, o título é nosso!

Os jogadores comemoram pelo campo. Com sua frieza habitual, Dida ainda consegue explicar para os companheiros que a defesa no pênalti do Gilberto havia sido pela dica certeira do jovem Riva. Os jogadores então, sem pestanejar, se voltam para Ricardo Rivelino e sua cadeira. Rincón, o mais forte, o tira com facilidade dali e, com a ajuda dos craques, começa a joga-lo para acima. Seu Tião, já velhinho, vê a cena pela TV Bandeirantes. Seu filho não chutava uma bola, mas tinha ajudado o Timão a ser campeão mundial! Seu sonho, estava realizado.

Guia Prático – Eleições 2018 em 15 Questões

Algumas pessoas não acreditam, outras se fazem de desentendidas, mas historicamente sempre existiram e continuam havendo diferenças marcantes entre a”esquerda” e a “direita” no campo da política. Em áreas fundamentais como na economia, na formulação de políticas públicas e sociais, na forma de inserção externa de um país e nas dimensões “morais e comportamentais” com as quais as sociedades lidam, esses dois pólos apresentam propostas distintas, quando não opostas.

Tendo isso em mente, a seguir são formuladas uma 15 perguntas que, de forma esquemática e objetiva, buscam contrapor essas duas visões em uma série de temas. Ao final, um maior número de respostas “A” corresponde a um determinado campo político; mais “B”, obviamente, ao outro.

Pode ser que as duas alternativas de respostas façam sentido e você concorde com ambas. Nesse caso, priorizar a mais importante ou com maior grau de concordância. Pode ser que discorde das duas; escolha então a “menos pior”. Por fim, as 15 perguntas são teóricas, mas, claro, devem ser pensadas tendo como referência a realidade brasileira. A questão 16 é uma brincadeira para descontrair depois de pensar!

Bom, é isso. Vamos ao jogo.

1 – Em termos gerais para que um país avance:

A. O Estado tem papel central no desenvolvimento econômico e social.

B. As forças do “livre-mercado” e da concorrência individual são as propulsoras essenciais.

2 – Em relação aos serviços públicos:

A. Devem estar fundamentalmente a cargo do próprio Estado, integralmente em áreas como Educação e Saúde.

B. Devem contemplar ampla e significativa participação da iniciativa privada, inclusive no fornecimento dos serviços sociais.

3 – Sobre programas na área de assistência social:

A. Precisam ser amplos e abrangentes, incluindo necessariamente políticas de transferência de renda.

B. Precisam ser altamente focalizados e temporários para o atendimento de situações de pobreza extrema;

4 – Iniciativas no campo educacional:

A. Devem incluir políticas de ação afirmativa e cotas para grupos populacionais vulneráveis e/ou discriminados.

B. Devem prescindir de tais políticas e basear-se no mérito próprio entre os indivíduos.

5 – O Sistema Único de Saúde:

A. Como é essencial e universal, precisa ser continuamente fortalecido, inclusive com mais recursos;

B. Como é insustentável na prática, precisa, paulatinamente, permitir o avanço dos serviços particulares;

6 – Na área de Segurança Pública:

A. Fundamental é que se ataquem as origens do problema, com prevalência das punições penais no âmbito da resocialização;

B. Imprescindível o aumento das penas e do “poder de fogo” do Estado, e mesmo dos indivíduos,para lidar com a criminalidade;

7 – Ainda no tema da violência urbana:

A. Políticas de desarmamento e controle de armas são desejáveis e fundamentais;

B. Ao contrário, uma “população armada” é parte da estratégia para lidar com o problema;

8 – Sobre o meio ambiente e a questão indígena:

A. Limites bem estabelecidos e rigorosos devem existir para evitar o desmatamento, com proteção integral de áreas indígenas;

B. Não podem ser empecilhos para o avanço da fronteira agrícola dada a importância do agronegócio na economia;

9 – Em relação às empresas estatais:

A. Devem ser continuamente fortalecidas, com grande aporte de recursos e pessoal, ainda mais em áreas estratégicas do desenvolvimento;

B. Distorcem a livre concorrência e são majoritariamente ineficientes e suscetíveis à corrupção, devendo ter escopo mínimo de atuação;

10 – Dado todo o contexto abordado até aqui, concorda que:

A. A valorização dos servidores públicos e o aumento do investimento público são essenciais para o país, do que decorre inclusive a necessidade de impostos para o financiamento das ações estatais.

B. A limitação dos impostos, o enxugamento do Estado, a livre iniciativa privada e a melhora do ambiente de negócios são os fatores fundamentais para o desenvolvimento.

11 – Em termos da inserção internacional do Brasil ela deve:

A. Priorizar a chamada integração “Sul-Sul” com ênfase na relação com os países em desenvolvimento e valorização das parcerias com os BRICS. Posicionar-se sempre que possível ao lado da causa palestina.

B. Alinhar-se com os posicionamentos ocidentais com forte convergência com as linhas gerais de ação dos EUA em âmbito mundial, inclusive em favor de Israel na questão do Oriente Médio,

12 – Concorda que:

A. Os movimentos sociais devem ser incentivados e valorizados, assim como entidades sindicais e outras formas de organização e de pressão política.

B. Grupos de pressão organizados, na verdade, atrapalham o bom funcionamento do mercado, além de eventualmente causar danos à propriedade privada.

13 – No campo cultural, comportamental e moral, de maneira geral:

A. A ideia de um Estado laico e defensor dos direitos humanos é o princípio fundamental a ser respeitado;

B. A interferência do Estado deve ser mínima, com grande relevância de valores tradicionais, muitas vezes ancorados na religião, para lidar com essas questões;

14 – Em termos dos direitos da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais):

A. Devem ser amplos e sem quaisquer restrições em relação aqueles observados para o conjunto da população. Rígido controle de manifestações contrárias e discriminatórias em relação a esse grupo;

B. Há a necessidade de certos limites, além da permissão de críticas abertas e posicionamentos fortes, particularmente na esfera religiosa, contra o “comportamento” desse grupo;

15 – Concorda que:

A. A discussão sobre o aborto deve ser feita do ponto de vista da mulher e como questão de política pública de Saúde;

B. O aborto trata-se, essencialmente, de um crime contra a vida e por isso deve ser restrito a casos excepcionais ou mesmo proibido;

16 – Claro que o segundo jogou mais, mas quem você prefere fora do campo:

A. MARADONA;

B. PELÉ.

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Pronto. Obviamente, espero, chegando até aqui já perceberam que mais respostas “A” refletem um posicionamento de esquerda; mais “B”, de direita. Eu gostaria muito que as eleições desse ano, ao invés do ódio de lado a lado e de ataques pessoais, fosse pautada por esses temas. Talvez esteja sendo ingênuo ou otimista, mas fica aqui minha contribuição.

Trump e o Brasil

Muito tem se falado sobre a surpreendente (?) eleição de Trump para presidência nos EUA. Evidentemente, as características deploráveis dessa figura – machismo, xenofobia, racismo, entre outras – precisam ser lembradas e é lamentável que alguém assim chegue ao poder. Mas esse pequeno texto concentra-se em outro aspecto: a situação econômica e social do “americano médio” que criou o ambiente propício para vitória de Trump (para depois tratarmos do Brasil).

Não é preciso aprofundar a discussão. Dados recentes, como aqueles produzidos por Thomas Piketty, mostram o aumento brutal da desigualdade nos EUA nas últimas décadas, com ganhos excessivos das parcelas ínfimas dos 1% ou 10% mais ricos, em detrimento dos demais. O desmantelamento de setores industriais, a perda de postos de trabalho e o aumento da pobreza são realidades que atingiram, especialmente, norte-americanos residentes em áreas como o interior de Ohio, Michigan e Pensilvânia (estados decisivos para o resultado eleitoral).

A crise de 2008, que deixou milhões de pessoas desempregadas e sem moradia, foi “resolvida” com ajuda governamental aos mesmos “ganhadores” de sempre. Seus efeitos, porém, persistem para as populações mais pobres e setores médios, enquanto banqueiros desfrutam de bônus milionários. Naturalmente, uma hora haveria a revolta com esse estado de coisas e o repúdio aos políticos do estabilishment. Não deu outra. Hillary Clinton, representante notória dessa camada privilegiada, foi derrotada.

Conforme colocado, é lamentável, mas, de certa forma, esperado, que quem conseguiu vocalizar esse sentimento de protesto foi alguém como Donald Trump (poderia ter sido Bernie Sanders? Talvez). Porém, como a história mostra e afirma Glenn Greenwald: “O sofrimento econômico muitas vezes alimenta o fanatismo” (https://theintercept.com/2016/11/09/democratas-trump-e-a-perigosa-recusa-de-entender-as-licoes-do-brexit/).

Chegamos então ao Brasil. O nosso cenário atual, em que uma medida como a PEC dos gastos tramita com celeridade no Congresso, num quadro de recessão econômica e elevado desemprego, proporciona o “caldo de cultura” necessário para que venhamos a ter o “nosso Trump”.

É verdade que já temos Michel Temer e seu governo ilegítimo. Mas o risco que corremos é a perpetuação desse grupo político, talvez com uma nova roupagem, tipo “camisa preta” de um Sérgio Moro ou “engomadinha” de um João Dória.

Fazendo um paralelo com as eleições norte-americas, é nítido também aqui o descontentamento com a política convencional, os partidos e seus representantes. Além disso, se lá a situação foi derrotada, aqui o PT, que governou o país por quase 14 anos, amargou resultados eleitorais terríveis em 2016. Claro, sabemos das questões ligadas ao linchamento midiático, à hipocrisia do combate seletivo da corrupção e à perseguição política travestida de legalidade jurídica, mas é extremamente necessário considerar os erros do próprio partido e dos governos Lula e Dilma.

Não seria uma tarefa fácil, mas será que não faltou firmeza, ou uma melhor estratégia (ou ambos), para enfrentar questões de interesse do, de novo, estabilishment político e financeiro do país? Sem perder de vista as peculiaridades de cada nação, mas assim como os democratas nos EUA – e outros exemplos poderiam ser dados, como o trabalhismo na Inglaterra e os socialistas na França – o PT não teria aceitado o “jogo do rentismo” e mantido estruturas de poder que mantém os ganhos do nosso 1% mais rico? Acredito que sim. No segundo governo Dilma então, não há a menor dúvida quanto à capitulação. Esta, no quadro de crise econômica, ajuda a explicar o abandono em relação ao PT de setores populares e de classe média baixa.

Em síntese, como muitos já tem observado, a eleição de Trump (assim como o Brexit), deixa lições para o chamado campo de esquerda ou progressista no país. A eleição municipal de 2016, na verdade, já havia indicado a magnitude dos desafios colocados. O quadro é ainda mais complexo na situação atual em que direitos individuais são desrespeitados e ações repressivas são respaldadas por autoridades e parcela da população.

O oxigênio, creio eu, vem da juventude, de movimentos populares e de iniciativas como o “quero prévias 2018” (http://www.queroprevias.org.br/). A ideia é debater, “de baixo para cima”, de forma democrática, propostas que reafirmem direitos e políticas igualitárias que estão sob ameaça, culminando com a escolha de candidatos para 2018. Segue a luta….

 

Paraolimpíadas, heroísmo e políticas públicas

Em tempos de paraolimpíadas no Rio de Janeiro, com várias questões circulando por aí, resolvi sair da inércia e acabar com o silêncio aqui no blog e dar uns “pitacos”.

Em primeiro lugar, os aspectos positivos dos Jogos. A invisibilidade sempre foi um dos maiores problemas enfrentados pelas pessoas com deficiência. Historicamente, esse grupo foi ignorado em diferentes sociedades e culturas, jogado “à sua própria sorte” (quando não, de forma deliberada, marginalizado e excluído). A deficiência era uma questão meramente individual e, apenas de forma gradual e irregular, foi sendo tratada como um tema coletivo, objeto da intervenção da sociedade e do Estado.

Eventos como as paraolimpíadas nos lembram, a todos, que as pessoas com deficiência estão vivas e ativas, não podendo ser esquecidas.

As trajetórias pessoais que aparecem nos Jogos Paraolímpicos são, desculpem o termo batido, exemplos de vida que podem estimular aqueles com ou sem deficiência. Eu mesmo, talvez influenciado pela correria toda de companheiros cadeirantes, deixei a “vagabundagem” de lado e essa semana consegui fazer exercícios caseiros de fisioterapia (a questão é durar; não posso parar quando acabarem as paraolimpíadas, né?). Se foi assim para mim, imagino o efeito positivo que pode haver naqueles que vivem parados ou reclamando da vida…

Isso dito, vamos aos pontos negativos.

A forma pela qual as trajetórias acima são retratadas, invariavelmente, reforçam estereótipos associados às pessoas com deficiência. Notadamente, a ideia de que se tratam de “cavaleiros do apocalipse”, “extraterrestres”, enfim, heróis! Tal forma de abordagem é muito comum e, ao longo do tempo, conviveu com outra em que, de maneira oposta, as pessoas com deficiência eram apresentadas como “fracas”, “inválidas” e/ou coitadinhas. Como diria o outro, nem uma coisa, nem outra, jacaré!

Há uma tremenda dificuldade, e talvez por essa questões culturais arraigadas não seja fácil mesmo, em apresentar as pessoas com deficiência enquanto, pausa, reflexão: simplesmente pessoas!

Outro aspecto em que, pelo menos do meu ponto de vista, as paraolimpíadas deixam a desejar é o esportivo, puro e simples. Juro que tentei acompanhar, mas domingo passado, por exemplo, certa hora estava passando: a final do US Open de tênis, Corinthians x Santos e jogos de futebol americano (NFL). Tudo bem que eu só passei raiva com o jogo do Timão (como perdeu gol no primeiro tempo!), mas, como fã de esportes, naquele momento as paraolimpíadas eram minha quarta opção. Mesmo rolando modalidades que eu gosto, como natação e atletismo, acho meio maçante pelo excesso de provas e alguns desequilíbrios flagrantes na competição, em que pese o agrupamento por classes e níveis de funcionalidade/deficiência.

Para terminar, esse último ponto serve para uma reflexão sobre os Jogos e as políticas públicas que existem nessa área, em especial aquelas de ação afirmativa, como vagas e cotas. As diferentes e múltiplas classes em que são separados os competidores com deficiência chamam atenção para uma questão pouco lembrada: a grande heterogeneidade desse grupo populacional.

Tal característica deveria ser levada em conta quando se desenha e/ou fiscaliza políticas públicas nessa área. Em relação às cotas no mercado de trabalho, por exemplo, é comum que empresas prefiram contratar pessoas “com deficiência leve”, em detrimento daqueles com maiores níveis de dificuldade funcional (justamente para os quais as ações afirmativas foram pensadas e devem atuar). Distorções análogas se verificam em concursos públicos, onde vagas reservadas ignoram situações onde há grande variedade em termos da limitação física, sensorial e/ou cognitiva.

O tema é controverso e sei que alguns colegas do movimento social têm arrepios ao ouvir falar de classificações ou similares que envolvam pessoas com deficiência. Elas não fazem o menor sentido mesmo quando discutimos políticas públicas de acessibilidade e outras de cunho universal. Mas, para o aperfeiçoamento de legislações e ações de caráter mais focalizado, devemos enfrentar esse debate e as paraolimpíadas evidenciam que equiparar oportunidades não é algo trivial.

Ufa, se eu fosse atleta paraolímpico estava perdido, já estou cansado, e só de escrever!