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Trump e o Brasil

10 de novembro de 2016

Muito tem se falado sobre a surpreendente (?) eleição de Trump para presidência nos EUA. Evidentemente, as características deploráveis dessa figura – machismo, xenofobia, racismo, entre outras – precisam ser lembradas e é lamentável que alguém assim chegue ao poder. Mas esse pequeno texto concentra-se em outro aspecto: a situação econômica e social do “americano médio” que criou o ambiente propício para vitória de Trump (para depois tratarmos do Brasil).

Não é preciso aprofundar a discussão. Dados recentes, como aqueles produzidos por Thomas Piketty, mostram o aumento brutal da desigualdade nos EUA nas últimas décadas, com ganhos excessivos das parcelas ínfimas dos 1% ou 10% mais ricos, em detrimento dos demais. O desmantelamento de setores industriais, a perda de postos de trabalho e o aumento da pobreza são realidades que atingiram, especialmente, norte-americanos residentes em áreas como o interior de Ohio, Michigan e Pensilvânia (estados decisivos para o resultado eleitoral).

A crise de 2008, que deixou milhões de pessoas desempregadas e sem moradia, foi “resolvida” com ajuda governamental aos mesmos “ganhadores” de sempre. Seus efeitos, porém, persistem para as populações mais pobres e setores médios, enquanto banqueiros desfrutam de bônus milionários. Naturalmente, uma hora haveria a revolta com esse estado de coisas e o repúdio aos políticos do estabilishment. Não deu outra. Hillary Clinton, representante notória dessa camada privilegiada, foi derrotada.

Conforme colocado, é lamentável, mas, de certa forma, esperado, que quem conseguiu vocalizar esse sentimento de protesto foi alguém como Donald Trump (poderia ter sido Bernie Sanders? Talvez). Porém, como a história mostra e afirma Glenn Greenwald: “O sofrimento econômico muitas vezes alimenta o fanatismo” (https://theintercept.com/2016/11/09/democratas-trump-e-a-perigosa-recusa-de-entender-as-licoes-do-brexit/).

Chegamos então ao Brasil. O nosso cenário atual, em que uma medida como a PEC dos gastos tramita com celeridade no Congresso, num quadro de recessão econômica e elevado desemprego, proporciona o “caldo de cultura” necessário para que venhamos a ter o “nosso Trump”.

É verdade que já temos Michel Temer e seu governo ilegítimo. Mas o risco que corremos é a perpetuação desse grupo político, talvez com uma nova roupagem, tipo “camisa preta” de um Sérgio Moro ou “engomadinha” de um João Dória.

Fazendo um paralelo com as eleições norte-americas, é nítido também aqui o descontentamento com a política convencional, os partidos e seus representantes. Além disso, se lá a situação foi derrotada, aqui o PT, que governou o país por quase 14 anos, amargou resultados eleitorais terríveis em 2016. Claro, sabemos das questões ligadas ao linchamento midiático, à hipocrisia do combate seletivo da corrupção e à perseguição política travestida de legalidade jurídica, mas é extremamente necessário considerar os erros do próprio partido e dos governos Lula e Dilma.

Não seria uma tarefa fácil, mas será que não faltou firmeza, ou uma melhor estratégia (ou ambos), para enfrentar questões de interesse do, de novo, estabilishment político e financeiro do país? Sem perder de vista as peculiaridades de cada nação, mas assim como os democratas nos EUA – e outros exemplos poderiam ser dados, como o trabalhismo na Inglaterra e os socialistas na França – o PT não teria aceitado o “jogo do rentismo” e mantido estruturas de poder que mantém os ganhos do nosso 1% mais rico? Acredito que sim. No segundo governo Dilma então, não há a menor dúvida quanto à capitulação. Esta, no quadro de crise econômica, ajuda a explicar o abandono em relação ao PT de setores populares e de classe média baixa.

Em síntese, como muitos já tem observado, a eleição de Trump (assim como o Brexit), deixa lições para o chamado campo de esquerda ou progressista no país. A eleição municipal de 2016, na verdade, já havia indicado a magnitude dos desafios colocados. O quadro é ainda mais complexo na situação atual em que direitos individuais são desrespeitados e ações repressivas são respaldadas por autoridades e parcela da população.

O oxigênio, creio eu, vem da juventude, de movimentos populares e de iniciativas como o “quero prévias 2018” (http://www.queroprevias.org.br/). A ideia é debater, “de baixo para cima”, de forma democrática, propostas que reafirmem direitos e políticas igualitárias que estão sob ameaça, culminando com a escolha de candidatos para 2018. Segue a luta….

 

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